quinta-feira, 29 de março de 2012

Aniversário da Estrada de Ferro: aniversário de Queimados?

Inauguração da Estrada de Ferro D. Pedro II, em 29 de Março
de 1858, com a presença do Imperador D. Pedro II e a Côrte.
- Foto do Acervo RFFSA-Preserfe -
Há exatos 154 anos, era inaugurada a Estrada de Ferro D. Pedro II, ligando o interior da província à capital do Império. Seu traçado inicial, de c. 48 Km, ligava a Estação da Corte (atual Central do Brasil) e Queimados. posteriormente, ao final do mesmo ano, seria inaugurado o segundo trecho dessa ferrovia, até Japeri que, naquela época, se chamava Belém. Realizava-se, dessa forma, um ambicioso projeto que visava o escoamento rápido e econômico dos gêneros produzidos no interior da província, particularmente o café, produzido nas serras paulista, fluminense e mineira.
Contudo, como destaca Rafael Oliveira, data de 1840 o primeiro projeto prevendo a implantação de uma ferrovia ligando a Vila de Iguassu (grande matriz, da qual se originou a maioria dos municípios que hoje compõem o todo, denominado Baixada Fluminense) a qualquer ponto da baía.  Quase uma década depois, um novo projeto que, assim como o primeiro, não chegou a sair do papel, previa a ligação entre a freguesia de Santo Antônio de Jacutinga e o rio Guandu, com possibilidade da abertura de um ramal até a Vila de Iguassu.[1] 
Assim, indubitavelmente, procurava-se modernizar a região, sempre visando facilitar o transporte da produção do café, produto responsável pela dinâmica da economia brasileira durante o Segundo Reinado.  Apesar das proposições de ‘modernização’ inseridas no contexto mundial da Revolução Industrial, percebe-se um gradual processo de perda do vigor da Vila de Iguassu, balizada pela crise do café fluminense, pelo término da escravidão e pelo deslocamento do eixo de circulação, a partir da construção da Estrada de Ferro D. Pedro II.
A chegada dos trens à Baixada Fluminense acabou por sepultar de vez as localidades que haviam se desenvolvido às margens dos caminhos ou portos fluviais, outrora os principais elos entre o interior e a capital da província.  As mercadorias, agora, tinham no trem, uma nova via de escoamento mais eficaz.  Por outro lado, a inauguração da linha férrea significou o deslocamento do eixo da ocupação humana para núcleos urbanos às margens dos trilhos.  Data de 1862 a transferência da sede da Vila de Iguassu, de Cava para Maxambomba, uma das estações da nova ferrovia.
Da mesma forma, no início do século XX, houve a mudança definitiva da sede do Segundo Distrito de Nova Iguaçu, de Marapicu para Queimados, às margens da estrada de ferro.  Essa mudança está também relacionada à introdução da citricultura de exportação na região.  O cultivo das laranjas se constituiu em uma atraente alternativa ao café, que já se encontrava em decadência devido ao empobrecimento do solo e à liberação de mão de obra, causada, em parte, pela assinatura da Lei Áurea, em fins do século XIX.
Posteriormente, já na década de 1950, quando começavam a se alçar, em Queimados, as primeiras vozes descontentes com a administração iguaçuana, a implantação da ferrovia começa a ser decodificada pelo imaginário popular, como um dos símbolos do progresso experimentado pela região.  Essa apropriação se torna explícita quando do centenário da estrada de ferro, em 1958.  As comemorações foram, meticulosamente organizadas pela comunidade local - que já então, se intitulava "queimadense" - serviram como porta-vozes de discursos políticos que destacavam a importância do Segundo Distrito de Nova Iguaçu.  Talvez ainda fosse cedo para se falar de um movimento organizado e coeso, que postulasse a emancipação política do distrito.  Contudo, era inegável a existência de forte descontentamento, captado por esses festejos.
Festejos comemoram o aniversário da chegada da ferrovia
a Queimados: durante muito tempo, identificada como um
dos símbolos do progresso na região.
Os discursos forjados por essa época parecem ter se enraizado fortemente na mentalidade de boa parte da população: ainda hoje é possível, em um bate-papo informal, encontrar quem se recorde dos acontecimentos de março de 1958, como "as comemorações do aniversário de Queimados."  Entretanto, do ponto de vista histórico, podemos afirmar que mapas antigos, de um período anterior à construção da ferrovia, já davam conta da localidade denominada "Pouso de Queimados", na região onde hoje se localiza nossa cidade.  Da mesma forma, só podemos falar de "aniversário de Queimados", enquanto unidade política autônoma, a partir de 1990, com a conquista da emancipação frente a Nova Iguaçu.
Enfim: o imaginário popular e a História, parecem nem sempre andar juntos... Porém, as contribuições do primeiro para a segunda vão muito além das nossas expectativas mais imediatas...


[1] OLIVEIRA, Rafael da Silva. “O ouro e o café na região de Iguaçu: da abertura de caminhos à implantação da Estrada de Ferro.”  In: VÁRIOS. Revista Pilares da História: Duque de Caxias e Baixada Fluminense. Ano 3,  nº 4, maio/2004 – Edição conjunta: Instituto Histórico Vereador Thomé Siqueira Barreto/Câmara Municipal de Duque de Caxias e Associação dos Amigos do Instituto Histórico. – p.p: 16-17.

5 comentários:

  1. Trabalho excelente. Parabéns.
    Rogério Torres

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  2. É interessante notar que as comemorações do centenário da chegada do trem em Queimados se dá em 1958, e daí se conclui que a ferrovia data de 1858, quatro anos apenas depois da inauguração da 1ª Ferrovia, que foi em Magé, mais precisamente em Guia de Pacobaíba.
    Ela foi construída justamente para escoar a produção oriunda das propriedades produtoras de café, laranja, etc...
    Danilo Fernandes

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  3. Parabéns. Trabalho excelente o seu com este blog.
    Gostaria, se possível que vc ou alguém me envie fotos antigas de Queimados. Estou realizando um trabalho sobre esta cidade e preciso de fotos antigas da cidade.
    Desde já agradeço.
    Claudia Santana

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  4. Ops... Não deixei meu email. É cligd@hotmail.com.
    Obrigada
    Claudia Santana

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  5. Parabéns!!! Belíssimo blog.
    Nesta comemoração do centenário da ferrovia, foi composto um hino do centenário, a autora foi minha tia Maria Lourdes Salum Fahur, ela era sobrinha do Padre Jose Marques que era, na época, o pároco da Igreja de Nossa Senhora da Conceição.
    Nossa família não tem nenhum registro desta partitura, se vcs tiverem acesso a isto, eu agradeceria se pudessem enviar uma copia.
    fernando.khouri@yahoo.com.br

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